Não tem vestido de nenhuma marca que possa tapar a tristeza, nem a melhor das maquiagens pode desenhar um sorriso quando está com a alma triste, e também não inventaram o creme que desapareça com as rugas do coração quando já está cansado de perder como o seu, porque nunca se atreveu de usá-lo. Mas, apesar disso ainda está em tempo de mudar as coisas, se quiser é claro, por isso você que sabe se corre o risco e se joga de uma vez.
quinta-feira, 16 de julho de 2026
A carta que eu nunca enviei.
Eu não sei exatamente por que estou escrevendo isso depois de tanto tempo. Talvez porque algumas histórias terminem, mas deixem certas palavras presas no lugar em que ficaram.
Às vezes eu sonho que finalmente encontro você. Nos sonhos, quase sempre existe alguma dificuldade, alguma espera, alguma coisa impedindo que esse encontro aconteça por completo. Acho que faz sentido, porque foi assim que nós existimos: muito próximas emocionalmente, mas sempre separadas pela distância.
Eu tinha 17 anos e amava muito de você. Naquela época, terminar pareceu ser a única maneira de parar de sofrer por não poder estar ao seu lado. Hoje entendo que eu não terminei porque não sentia o suficiente. Talvez tenha sido justamente porque sentia demais e não sabia lidar com a impossibilidade de viver aquilo de verdade.
Durante muito tempo, fiquei pensando no que poderia ter acontecido se tivéssemos nos encontrado. Talvez desse certo, talvez não. Talvez percebêssemos que éramos diferentes. Nunca vou saber. Mas a ausência desse encontro deixou nossa história num lugar estranho, como algo que terminou sem ter realmente começado por inteiro.
Anos depois, quando voltamos a conversar de vez em quando, você ainda era alguém importante para mim. Eu gostava de saber como você estava, de ouvir seus desabafos e de perceber que ainda existia entre nós algum tipo de confiança e carinho.
Quando eu parei de falar com você repentinamente, não foi porque você deixou de ser importante ou porque eu não queria mais saber de você. Eu estava em um relacionamento, e a continuidade do nosso contato passou a causar desconforto. Escolhi preservar a relação que eu estava construindo, mas não consegui explicar isso com honestidade. Quando você perguntou o que havia acontecido, eu disse que não era nada. Sinto muito por não ter falado a verdade.
Eu não sei como você recebeu o meu silêncio. Talvez tenha entendido, talvez tenha se sentido rejeitada, talvez simplesmente tenha seguido sua vida. Mas eu queria que você soubesse, mesmo que apenas nesta carta que provavelmente nunca chegará até você, que não foi indiferença.
Ainda me lembro de você algumas vezes. Uma música, uma época, uma sensação ou um sonho acabam trazendo tudo de volta. Não sei se sinto falta da pessoa que você é hoje, porque, na verdade, eu já não conheço essa pessoa. Acho que sinto saudade de quem nós éramos, da conexão que tivemos e da possibilidade que ficou suspensa entre nós.
Tenho curiosidade de saber como seria conversar com você depois de tantos anos. Queria saber o que mudou, o que permaneceu e se você também se lembra de mim de vez em quando. Mas sei que tanto você quanto eu construímos outras vidas, outros vínculos e outras histórias. Não quero invadir ou desorganizar nada.
Talvez esta carta seja apenas a forma que encontrei de dizer aquilo que nunca consegui: você foi importante para mim. O que vivemos foi verdadeiro, mesmo tendo sido virtual, breve e incompleto. Eu não me afastei porque deixei de me importar. E apesar de, às vezes, ainda imaginar o encontro que nunca aconteceu, também reconheço que nem toda vontade precisa se transformar em realidade.
Espero que você esteja bem, que seja feliz e que tenha encontrado caminhos que façam sentido para você.
Eu também estou seguindo o meu caminho. Só precisava olhar para trás uma vez, com carinho e honestidade, e dar às palavras que ficaram presas um lugar para existir.
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